Game Dev 16 de outubro de 2026• 6 min de leitura• Rafael Guimarães

O Pong que não morre: de um concurso de 100 pontos e vírgulas ao GG Pong multiplayer

A mesma ideia de jogo atravessou dezessete anos no Guima Games: um Pong inacabado numa aula de SDL, a versão em XNA feita numa madrugada, o porte para o navegador com Silverlight e, hoje, o GG Pong com multiplayer peer-to-peer. A história do Pong no Guima Games: aula de SDL na pós, concurso SharpGames em XNA, SilverSprite no navegador em 2009 e o GG Pong multiplayer atual.

O Pong que não morre: de um concurso de 100 pontos e vírgulas ao GG Pong multiplayer

Todo desenvolvedor de jogos tem um projeto que volta. Para o Guima Games, esse projeto é o Pong. Ele apareceu numa aula de pós-graduação, ganhou uma versão para um concurso, foi parar no navegador em 2009, voltou ao ar em 2012, entrou no primeiro portal do estúdio em 2014 e hoje é o GG Pong, com multiplayer online.

Este artigo conta essa trajetória, versão por versão, e o que cada uma ensinou.

O Pong que não ficou pronto

A história começa mal. Na primeira aula de SDL da pós-graduação em Desenvolvimento de Jogos da Unicenp, em Curitiba, a turma recebeu cerca de uma hora para fazer um Pong. Das trinta pessoas na sala, só uma não terminou: eu. Quando o tempo acabou, meu Pong tinha uma raquete e a bolinha.

É uma lembrança engraçada hoje, mas ela explica muito do que veio depois. Pong parece trivial, e é justamente por isso que expõe tudo que você ainda não domina: o laço do jogo, a leitura do teclado, a colisão, o placar. Errar ali foi o melhor jeito de descobrir o que faltava aprender.

2009: o concurso dos 100 pontos e vírgulas

Em janeiro de 2009, o portal SharpGames lançou o concurso ROX, com uma regra curiosa: fazer um jogo em XNA, a plataforma de jogos da Microsoft na época, usando no máximo 100 caracteres ";", os pontos e vírgulas que terminam cada instrução em C#.

A regra obriga a pensar no que é essencial. Cada linha conta. O Pong era o candidato óbvio: poucas regras, poucos objetos.

Em XNA, o Pong que não ficou pronto na aula de SDL saiu numa madrugada. O resultado chegou a 206 pontos e vírgulas, o dobro do limite, todos numa única classe, a Game1.cs. Não ganhou o concurso pelo critério do tamanho, mas ganhou outra coisa: um jogo pronto.

No post-mortem que escrevi na época, a parte mais interessante não foi o código. Foi o que aconteceu depois: o jogo atraiu um artista e amigos programadores, e logo apareceram ideias de multiplayer e de trocar as raquetes por modelos 3D de tanques. Um jogo terminado, mesmo simples, vira um lugar onde as pessoas se juntam.

A crítica daquele post também envelheceu bem: o XNA exigia placa de vídeo com Shaders 2.0, e muita gente não conseguia rodar um jogo que só desenhava retângulos. A barreira de entrada não estava no jogo, estava na plataforma.

Abril de 2009: o Pong vai para o navegador

A solução para essa barreira apareceu em abril de 2009: o SilverSprite, uma biblioteca que fazia jogos escritos para XNA rodarem no navegador por meio do Silverlight, o plugin da Microsoft para aplicações web.

O primeiro porte deu trabalho:

  • conflitos de namespace entre as duas plataformas;
  • a caixa de colisão (BoundingBox) não se comportava igual;
  • o jogo rodava a 24 quadros por segundo, bem abaixo do ideal.

Resolvidos os problemas, o Pong foi publicado no SilverArcade, um portal de jogos Silverlight, numa tela de 750 por 600. O que mais me marcou foi a rapidez do retorno do portal: em pouco tempo o jogo estava no ar, jogável por qualquer pessoa, sem precisar de placa de vídeo nem de XNA instalado.

Foi a primeira vez que um jogo da Guima Games rodou no navegador de outra pessoa. A ideia de "abrir e jogar", que hoje é o princípio do portal, começou ali.

Do Pong a uma biblioteca de peças

Em maio de 2009, o Pong já tinha passado do limite do concurso, chegando a 120 pontos e vírgulas na versão revisada. Mas ele deixou uma herança mais útil que o próprio jogo: classes reutilizáveis. Um gerenciador de sprites, um menu e um temporizador saíram do Pong e passaram a servir para os próximos projetos, como o Sudoku que eu queria portar de C++ para XNA.

Essa é uma lição que vale para qualquer pessoa começando: o primeiro jogo não precisa ser grande; ele precisa deixar peças. Cada jogo pequeno que você termina facilita o próximo.

O portfólio que montei em julho daquele ano mostra o Pong em três formas: a versão XNA, a versão web com SilverSprite e uma mais antiga, um Pong multiplayer cliente/servidor em C++ com DirectX DirectPlay 8. O multiplayer, que hoje está no GG Pong, já estava no caminho desde o começo.

2012 e 2014: o Pong continua no ar

O Silverlight foi perdendo espaço, mas o Pong não sumiu. Em fevereiro de 2012, ele voltou ao ar em outra hospedagem, com o título "Still alive". Em abril de 2014, quando o primeiro portal do Guima Games estreou, o Pong SilverSprite foi um dos jogos da lista, ao lado do Popcanvas e do Vimorize (Jogo de Memória para o Filho).

Cada mudança de hospedagem exigia algum ajuste. Manter um jogo antigo no ar ensina uma coisa que pouco se fala: jogo publicado é jogo mantido. As plataformas mudam, os navegadores mudam, e o jogo só continua vivo se alguém continuar cuidando dele.

Hoje: o GG Pong

O Silverlight deixou de existir nos navegadores, e o Pong precisou renascer em tecnologia web aberta. O GG Pong atual é feito com Phaser 3, roda em qualquer navegador moderno, no computador ou no celular, e traz as duas ideias que apareceram em 2009:

  • Jogar contra o computador, com uma CPU que segue a bola na metade da sua velocidade, para ser vencível;
  • Multiplayer online, agora peer-to-peer, com os dois navegadores conectados diretamente via WebRTC e PeerJS.

Algumas regras são as mesmas de sempre: partida até 10 pontos, e o ângulo da rebatida depende de onde a bola bate na raquete. Outras são novas, como a bola que acelera 5% a cada rebatida. Os detalhes técnicos estão no artigo GG Pong por dentro.

O que dezessete anos de Pong ensinaram

  1. Errar o simples é o melhor professor. O Pong inacabado da aula de SDL mostrou exatamente o que faltava aprender.
  2. Restrição ajuda a terminar. O limite de 100 pontos e vírgulas forçou a pensar no essencial.
  3. Jogo pronto atrai gente. O Pong de 2009 trouxe um artista e amigos para o projeto.
  4. O navegador é a plataforma que fica. De SilverSprite a Phaser, o objetivo foi sempre o mesmo: abrir e jogar, sem instalar nada.
  5. Jogo publicado é jogo mantido. O Pong só existe hoje porque foi carregado de plataforma em plataforma.

E por que sempre volta a idéia do PONG ?

Como foi um dos primeiros jogos que joguei na vida, em um Tele-Jogo, antes do Atari. Essa lembrança sempre retorna a mente, e é muito gratificante lembrar das origens. Esqueci até de comentar que tem uma versão para iOS, usando a Rede especial que a Apple permite usar, por proximidade... Roda bem para um grupo de amigos e não depende de internet. Interessante a pegada. Da pra explorar diversos jogos, em locais que vc não tem o acesso a internet por algum motivo.

Jogar o GG Pong

Continue lendo

RG

Rafael Guimarães

Criador do Guima Games Portal & Game Developer

Ver mais artigos